“Como instrumento de luta, a greve está superada”. Será mesmo?

"[...] começa a ladainha da necessidade de sermos criativos, de aprendermos a lidar com as redes sociais, de criar canais de comunicação com a população, com o governo, com os deputados, com a Acim [...], enfim, uma resposta concreta ainda estou por ouvir" (Prof. Dr. Pedro Jorge de Freitas do DCS/UEM).

Por Pedro Jorge de Freitas

Quando ouvi pela primeira vez a frase acima, fiquei muito feliz. Afinal, greves são sempre processos difíceis, trabalhosos e se estiver, de fato, superada como instrumento de luta, é óbvio que eu quero saber pelo quê. Sim, porque algo só pode ser superado por outra coisa que tome seu lugar. Aí, para minha tristeza, começa a ladainha da necessidade de sermos criativos, de aprendermos a lidar com as redes sociais, de criar canais de comunicação com a população, com o governo, com os deputados, com a Acim, Conem, mas, enfim, uma resposta concreta ainda estou por ouvir.

Por isso, continuo a pensar como me manifestei na última greve: fazemos greve porque somos trabalhadores. Se fossemos banqueiros não faríamos greve. Se fossemos donos de empresas de educação, também não. Tampouco se fossemos donos daquela loja com a Estátua da Liberdade na sua porta. Mas, não! Somos trabalhadores, vendemos a nossa força de trabalho e não exploramos o trabalho de ninguém. Daí, que fazemos greve. Nenhum comerciante mantém os preços de suas mercadorias sem reajuste de um ano para outro. Quanto mais três anos. Por que, então, eu, trabalhador que vendo minha força de trabalho, não posso reivindicar o reajuste de seu valor?

Então, queiramos ou não, a greve continua sendo a nossa principal arma para obter esta recuperação do valor de nossa força de trabalho. Esse era o ponto de partida de nosso movimento. A ele se integraram outras questões, como a renovação dos contratos dos temporários ou a Lei Geral da Universidade. E, se na questão salarial nossa conquista foi muito pequena, bem aquém do que pretendíamos,  foi a greve que permitiu que discutíssemos estas outras duas questões, com resultados satisfatórios no caso dos temporários, (quando alguns chefes confessavam orgulhosos já estarem fazendo a atribuição de ensino em seus departamentos sem contar com as horas dos temporários) e com a conclusão, depois de amplo debate com os colegas das outras universidades do Paraná, de que a Lei Geral deve ser rejeitada por toda comunidade acadêmica.

Mas, comunidade acadêmica, infelizmente, é algo que existe cada vez menos. No ambiente acadêmico prevalecem cada vez mais os interesses particulares que seriam estranhos a uma verdadeira comunidade. Assim sendo, há muito entre nós esperançosos de que, mesmo ao preço da destruição do modelo de universidade que, com todas nossas falhas, construímos, a Lei Geral abrirá algumas brechas por onde fluirão benefícios, alguns confessáveis, outros nem tanto, dos quais eles possam se aproveitar. Quem sabe tenham sorte! Mas, sendo assim, que ao menos se abstenham de opinar sobre formas milagrosas de luta em defesa da Universidade pública. Deixem esse debate para quem de fato com isso se preocupe.

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