Não é Pacote de Maldades. É capitalismo

"As décadas passam, os governantes também: o cinismo das classes dominantes, no entanto, permanece o mesmo".

Artigo de opinião: Professor Pedro Jorge Freitas

Departamento de Geografia - DGE

Com frequência ouvimos em nossas assembleias que o governador lançou um pacote de maldades contra os trabalhadores do serviço público. Isso coube para o Ratinho, para o Richa, para o Requião, Lerner, desde que Gustavo Barroso Franco, ex-presidente do banco Central durante o governo de FHC criou esta expressão e a cada vez que as consequências das crises econômicas são jogadas nas costas do trabalhador.

A rigor, no entanto, esta expressão não diz nada. Apenas expressa o cinismo com que a equipe econômica de FHC (e ele próprio) tratavam a questão social no Brasil. Em nome de uma estabilidade econômica que nunca poderá ser obtida em uma economia capitalista dependente como a nossa, a questão social deve ser colocada em segundo ou terceiro plano e, finalmente, como definiu o ex-presidente Washington Luís, ser tratada como caso de polícia. As décadas passam, os governantes também: o cinismo das classes dominantes, no entanto, permanece o mesmo.

É, portanto, equivocado usarmos em nossos debates esta expressão criada para escarnecer da classe trabalhadora. Ela oculta a verdadeira intenção dos diversos governos e de suas ações, reformas, políticas salariais, etc. Ratinho, por exemplo, não tem um pacote de maldades. Ratinho defende os interesses das classes exploradoras que atuam em nosso estado. Mente quando diz que não pode dar recomposição salarial, mas aceita dar em valor 30 vezes maior isenção fiscal para o agronegócio; mente quando diz que a previdência está quebrada, quando sabemos que ao longo dos anos nossa previdência não contou com o aporte patronal, ou seja o estado, e que, mais que isso, foi saqueada por esse mesmo Estado caloteiro para pagar suas dívidas com bancos, empreiteiras, empresas de comunicação, manter privilégios de segmentos do estado decisivos para manter o governo em posição confortável.

Transferir riqueza de quem produz para quem nunca produziu nada é o esporte preferido do capitalismo. É a sua forma de ser. Quando mergulha em suas inevitáveis crises cíclicas, como a que vivemos hoje, ele intensifica a sua exploração. Não se trata de maldade ou bondade do governador, mas do fato de que governantes são os gestores desses interesses do capital contra os interesses dos trabalhadores. Cumprem, rigorosamente, as regras do jogo capitalista. São mais ou menos canalhas na proporção em que com mais ou menos empenho cumprem este papel. Um governador e deputados extraídos do agronegócio, como no nosso estado, sempre cumprirão com o maior rigor estas regras.

Com todos problemas que possam ter, as universidades e o serviço público sempre cumprem o papel de pedras nesse caminho. São hoje, para eles, os inimigos a serem destruídos. Não guardemos qualquer ilusão, não esperemos outra coisa senão mais ataques. Não existe nenhuma alternativa fora do que seja a nossa organização independente.

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