O Uso da Inteligência Artificial na Graduação: Entre a Inovação e a Responsabilidade Acadêmica
É interessante observarmos que, após a ampla disponibilização comercial da Inteligência Artificial (IA) ao público, grande parte dos debates sobre seu uso passou a oscilar entre dois extremos, a saber, a recusa dessas tecnologias ou sua aceitação irrestrita nos ambientes universitários. Entendemos, porém, que essa polarização simplifica uma questão muito mais complexa. Ao analisarmos historicamente o desenvolvimento tecnológico, percebemos que toda tecnologia produzida pela humanidade foi, em diferentes períodos, incorporada às relações sociais, ao trabalho, à educação e às formas de produção do conhecimento. Com a IA não é diferente. Compreendemos que ela resulta de condições históricas, econômicas e sociais específicas e, por isso, não pode ser tomada como uma tecnologia neutra ou separada dos interesses, das disputas e das contradições presentes na sociedade que a produziu.
Por isso, refletir sobre a IA generativa no ambiente universitário exige superar tanto as posições de recusa imediata quanto às perspectivas de adesão acrítica. Em outras palavras, defendemos que a questão posta para os diálogos, sobre a incorporação ou não da IA, precisa levar em conta em quais condições, com quais objetivos e sob quais princípios essas tecnologias podem ser inseridas no ensino, na pesquisa e na extensão, tripé muito caro às nossas IES.
Nesse sentido, a publicação da Portaria CNPq nº 2.664, de 6 de março de 2026, que instituiu a Política de Integridade na Atividade Científica, juntamente com outras normativas que vêm sendo produzidas por órgãos públicos e instituições de Ensino Superior (inclusive na nossa própria instituição), traz algumas orientações sobre o uso ético dessa tecnologia. Claro que, essas regulamentações não encerram o debate nem solucionam todas as contradições relacionadas à IA, uma vez que estamos vivendo o início dessa nova configuração nos ambientes universitários e muitas mudanças ainda ocorrerão. Contudo, já estabelecem princípios mínimos para sua utilização, como a transparência, a preservação da autoria humana, a responsabilidade pelo conteúdo produzido, a integridade científica e a proteção de dados.
Com isso, queremos finalizar defendendo que a universidade deve formar sujeitos capazes de compreender, utilizar e avaliar criticamente as tecnologias que atravessam a vida social e a produção do conhecimento. Isso significa reconhecer as possibilidades da Inteligência Artificial no meio acadêmico, sem abrir mão da leitura, da escrita, da reflexão, da análise e da construção própria de argumentos. Cabe a nós, enquanto comunidade acadêmica, criar condições para que a IA seja utilizada como apoio ao trabalho intelectual, ampliando as possibilidades de pesquisa, organização, criação e aprendizagem. Diante disso, a questão que permanece é saber se queremos uma universidade que ensine seus estudantes apenas a operar tecnologias ou uma universidade capaz de formá-los para compreender, questionar e transformar a realidade em que essas tecnologias são produzidas e utilizadas?
Fabiane Freire França
Doutora em Educação. Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação - PPE-UEM, do Mestrado Profissional em Processos e Tecnologias Educacionais em Rede Nacional - ProfEducatec/UEM-Cianorte e do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Desenvolvimento - Unespar. Líder do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação, Diversidade e Cultura - GEPEDIC.
Flávio Rodrigues de Oliveira
Doutor em Educação. Professor no Departamento de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá - UEM. Docente do Mestrado Profissional em Processos e Tecnologias Educacionais em Rede Nacional - ProfEducatec/UEM-Cianorte e também do Mestrado Profissional em Educação Inclusiva (Profei-UEM).