Monstros e monstros: uma reflexão sobre a violência contra a mulher

De uns anos para cá os monstros dos filmes e de histórias infantis estão sendo humanizados. Desde Shrek, em 2001, Deu a Louca na Chapeuzinho, 2005, Crepúsculo, 2008, Malévola, 2014, até Frankenstein, 2025, os ogros, lobos-maus, vampiros, bruxas e outros monstros, foram perdendo suas características de seres maus por natureza e passaram a apresentar traços humanos, e alguns até com mais humanidade que os personagens propriamente humanos. Vivemos uma época de desconstrução daquele maniqueísmo básico que marcou minha infância e adolescência, pois até o demônio já foi apresentado como um bom sujeito em séries como Lúcifer, de 2016 a 2021, e Good Omens, de 2019 a 2023. Mas será que os monstros que querem fazer mal para os seres humanos deixaram de existir?

 Se, por um lado, no mundo dos filmes, animações e séries, há um esforço para desmistificar os tradicionais seres maus que povoaram e encheram de medo o mundo da imaginação de crianças, adolescentes e jovens algumas décadas atrás, hoje nós ainda temos que conviver com outros tipos de monstros, infelizmente mais reais, mais próximos de nós. Se definirmos os monstros como seres que são inumanos, que não tem empatia para com os seres humanos, que querem impor sua força para os submeterem aos seus desejos e caprichos, que querem exterminá-los, então não devemos procura-los fora da nossa própria realidade, pois vemos monstruosidades sendo cometidas no nosso dia-a-dia.

Eu poderia aqui criar uma lista muito grande de atitudes que podemos qualifica-las como monstruosas; poderia aqui mencionar os monstros que, como alguns do mundo da imaginação, podem mudar de forma e se apresentar, aos nossos olhos, como seres normais, mesmo inofensivos. Penso mais especificamente em monstros que se travestem de namorados, maridos, pais, tios, avós que, com a capa da confiança que temos em parentes, cometem atrocidades contra namoradas, esposas, filhos, sobrinhos e netos. Mas hoje quero refletir sobre um tipo particular de monstruosidade que incomodou muitas pessoas nesses dias, inclusive a mim. Trata-se da chuva de comentários que monstros escondidos pelo sigilo da internet, fizeram contra uma mulher que teve os dois filhos mortos pelo marido, o qual se suicidou depois e deixou uma carta culpando a mulher pelo ato que ele cometeu por uma traição que ela havia cometido.

Não vou me ater aqui na análise do que o marido fez, pois muitas pessoas sensatas já o fizeram, dentre elas várias jornalistas. O ato, em si, já é uma crueldade e uma covardia sem tamanho. Mas, para além do crime, que por si só já tem uma dimensão de tragédia, o que mais impressionou foram os comentários raivosos de pessoas, a imensa maioria homens, que culparam a mulher pelo ato do marido. E isso em meio à dor da perda de seus dois filhos. Infelizmente e tragicamente ainda temos inúmeros monstros entre nós, e não são corpulentos, com poderes, desfigurados, mas são pessoas de aparência normal que podem, inclusive, fazer parte de nossos círculos familiares ou de amizades; esses monstros têm a coragem de, em nome da tradição, da religião, dos bons costumes, da família tradicional brasileira, destilarem o veneno do ódio pelas redes sociais. No fundo, assim como alguns dos monstros de minha infância e adolescência, os nossos monstros atuais atacam as pessoas porque veem nelas a possibilidade do fim de seu poder. O machismo ainda resiste e se torna cada vez mais violento, não porque as pessoas defendam a família com base em alguma tradição religiosa, ele resiste porque é uma forma de poder, é uma forma de estabelecer submissão, porque tem pessoas, homens no caso, que só entendem sua razão de existência a partir da imposição de suas vontades. Quando esse poder é questionado de alguma forma, ele pode responder de forma violenta, seja física, seja moral, seja de perto, seja de longe, seja escondido em perfis de redes sociais.

Os monstros de antigamente, como ogros, vampiros, bruxas, demônios, devem continuar sendo humanizados, mas os de hoje têm que ser combatidos!!

Celio Juvenal Costa

Professor do Departamento de Fundamentos da Educação da UEM

Vice-Presidente da ADUEM

Todos juntos por todas: O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio

No dia 04 de fevereiro, foi lançado o Pacto Nacional contra o Feminicídio, com a união dos Três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. A iniciativa partiu do Presidente Lula em face do aumento dos feminicídios no Brasil, onde foram assassinadas quatro mulheres por dia, no ano passado.

O Feminicídio, antes não qualificado e nem contabilizado nas estatísticas passa a fazer parte do cenário legal e de mobilização social no Brasil, a partir da lei 13.104, aprovada em 09 de março de 2015, a qual altera o Código Penal com a inclusão do crime de feminicídio, detalhando penas maiores quando a mulher está em situação de vulnerabilidade (meninas e idosas).

A partir desta alteração, o crime de feminicídio passa a ser qualificado como crime contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. Também, a lei considera como razões de condição do sexo feminino: a violência doméstica e familiar e o menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Entretanto, apenas a publicação da Lei do Feminicídio não inibiu esse crime bárbaro que acontece tanto dentro dos relacionamentos privados como na supressão do direito de ir e vir das mulheres. Homens que não aceitam o fim do relacionamento ou que querem se apropriar dos bens da mulher, estão entre os criminosos.

De acordo com o Planalto do Governo, em 2025, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Já o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.

Ao mesmo tempo que existe uma estrutura de combate à violência contra a mulher, protegendo-as, há um problema social grave que ainda persiste nos homens que ser consideram donos dos corpos e mentes das mulheres.

Sempre houve um silêncio na sociedade pautado no lema: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colar” ou dizeres preconceituosos culpabilizando a vítima da morte ou do ataque sofrido, com frases do tipo: “o que estava fazendo ali andando sozinha”, “que roupa estava usando”, “ela procurou”, dentre outras frases desqualificadoras para justificar o crime e o criminoso.

Assim, o senso comum finge esquecer que o estuprador estupra mulheres bebês com fraldas, idosas, filhas, irmãs, esposas, netas, sobrinhas, empregadas...não importa o local nem a roupa, nem a idade. E a sociedade, de modo geral, continua fingindo não ver quando uma mulher é agredida ou morta dentro do próprio relacionamento.

Campanhas recentes têm chamado a atenção dos homens para sua responsabilidade diante da violência contra a mulher, mas nem isso tem inibido os feminicídios.

Portanto, ao tomar a iniciativa de se comprometer com o combate ao feminicídio, o Presidente Lula desencadeia uma cobrança para toda a sociedade brasileira, ao integrar os três poderes e lançar em conjunto o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio.

O pacto tem como objetivos acelerar o cumprimento das medidas protetivas, fortalecer as redes de enfrentamento à violência em todo o território nacional, ampliar ações educativas e responsabilizar os agressores, combatendo a impunidade.

O acordo também prevê compromissos voltados à transformação da cultura institucional dos três Poderes, à promoção da igualdade de tratamento entre homens e mulheres, ao enfrentamento do machismo estrutural e à incorporação de respostas a novos desafios, como a violência digital contra mulheres.

Para garantir a efetividade das ações, o pacto institui uma estrutura formal de governança, com a criação do Comitê Interinstitucional de Gestão, coordenado pela Presidência da República. O colegiado reunirá representantes dos três Poderes, com participação permanente de Ministérios Públicos e Defensorias Públicas, assegurando acompanhamento contínuo, articulação federativa e transparência.
Pelo Executivo, integram o comitê Casa Civil, Secretaria de Relações Institucionais e os ministérios das Mulheres e da Justiça e Segurança Pública.

Desta forma, como medidas concretas, o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio estabelece:

  • Medidas protetivas mais rápidas e que funcionem de verdade
    Menos tempo entre a denúncia e a proteção efetiva da mulher. A ideia é que decisões judiciais, polícia, assistência social e rede de acolhimento passem a agir de forma coordenada, sem “empurra-empurra”.
  • Estado inteiro olhando para o mesmo caso
    Executivo, Legislativo e Judiciário e órgãos de controle compartilham informações e acompanham os casos de forma integrada, do pedido de ajuda até o desfecho, reduzindo falhas que hoje colocam mulheres em risco.
  • Mais prevenção antes da violência virar morte
    Campanhas permanentes, educação para direitos, capacitação de agentes públicos e ações para mudar a cultura de violência — inclusive envolvendo homens como parte da solução.
  • Agressores responsabilizados com mais rapidez
    Processos mais céleres, menos impunidade e respostas mais firmes a quem descumpre medidas protetivas ou comete violência.
  • Atenção especial a quem corre mais risco
    Foco em mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas, do campo, com deficiência, jovens, idosas e moradoras de áreas remotas ou em maior vulnerabilidade.
  • Resposta a novas formas de violência
    Enfrentamento da violência digital, como perseguição, ameaças e exposição online, que muitas vezes antecedem agressões físicas.
  • Cobrança pública de resultados
    Relatórios periódicos, metas e prestação de contas: o pacto não fica só no anúncio — ele cria obrigação de mostrar o que está funcionando e o que precisa mudar.

Espera-se que a união dos três poderes e as medidas anunciadas no Pacto Brasil contra o Feminicídio contribuam para eliminar a triste escalada dos feminicídios no país.

Que o exemplo do Presidente Lula de se juntar na defesa das mulheres em situação de violência seja seguido pelos brasileiros, com o fortalecimento, na prática, do lema “ TODOS JUNTOS POR TODAS”.

 

Fonte para dos dados sobre o Pacto Brasil contra o Feminicídio: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2026/fevereiro/tres-poderes-da-republica-se-unem-em-pacto-historico-para-enfrentamento-ao-feminicidio-no-brasil

O Câncer de mama no Brasil representa um dos maiores desafios de saúde pública

Precisamos falar sobre o Câncer de Mama

Como profissional da área de saúde observo cotidianamente o impacto devastador do diagnóstico do câncer de mama na vida das mulheres e suas famílias. A doença mexe com vários aspectos da vida, além de seu impacto físico e clínico, tem profundas implicações estéticas e psicológicas nas mulheres acometidas. A mama, enquanto símbolo de feminilidade, maternidade e sexualidade, é muitas vezes associada à identidade da mulher, gerando sentimentos de inadequação e perda do valor pessoal.

Assim, o diagnóstico e o tratamento — especialmente cirúrgico — representam uma ruptura na autoimagem, no corpo e na vida emocional da paciente. As reações ao diagnóstico geralmente envolvem medo, choque e insegurança. A incerteza em relação à cura, o temor da morte e a possibilidade de recorrência provocam altos níveis de ansiedade. Muitas mulheres enfrentam quadros de depressão, angústia e perda de autoestima, especialmente quando o tratamento implica modificações significativas na imagem corporal, como a mastectomia ou a queda de cabelo. O câncer de mama pode abalar profundamente a identidade feminina, gerando sentimentos de inadequação ou perda de valor pessoal

No Brasil a patologia representa um dos maiores desafios de saúde pública   sendo a segunda neoplasia de maior incidência entre as mulheres brasileiras, atrás apenas dos cânceres de pele e a primeira causa de morte por câncer em mulheres no país, em 2023 representou 20 mil óbitos, números alarmantes quando comparamos com países com maior acesso ao diagnóstico e tratamentos precoces. Merece destaque o fenômeno do “rejuvenescimento” do câncer de mama no Brasil, entre 2015 e 2022, a faixa etária de 30 a 49 representou 30,5% dos novos casos da doença, sendo que 1 em cada seis mortes ocorreu em mulheres com menos de 50 anos. Mulheres negras e pardas apresentam 44% dos diagnósticos tardios, comparando a 36% em mulheres brancas. Estes números nos alertam para a importância da realização de exames diagnósticos e ações de prevenção em mulheres destas faixas etárias.

De acordo com o Instituto nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar um aumento de 10% no número de casos de câncer de mama em 2025, registrando um total de 73.610 casos novos no período.

Quando analisamos estes dados, considerando características raciais e socioeconômicos das mulheres acometidas, fica claro as profundas iniquidades entre mulheres mais vulneráveis socialmente. Entre 2010 e 2024, observou-se aumento das taxas de mortalidade em todos os grupos raciais, sendo particularmente alarmante crescimento entre mulheres indígenas   ( de 11 em 2010 e 2,1 em 2010 para 5,6 em 2024) e pardas (11 em 2010 para 15,8 em 2024, a taxa de mortalidade em mulheres pretas e pardas passou de 11,7 em 2010 para 15,7 em 2024, 44% destas mulheres apresentam diagnóstico tardio o que leva a este número maior de óbitos.  Estas disparidades não refletem fatores biológicos, mas sim risco social, relacionados ao diagnóstico tardio, acesso a tratamento efetivos, condições de moradia, educação, rede social de apoio.

O sistema Único de Saúde (SUS) oferece várias possibilidades terapêuticas e estabelece que a paciente com neoplasia tem direito ao primeiro tratamento no máximo até 60 dias a partir do diagnóstico, mas infelizmente apesar dos avanços diferenças regionais de estrutura dos serviços ofertados, risco social, persistem importantes desafios no acesso ao tratamento oncológico, entre eles o início do tratamento, que ainda ultrapassa 158 dias tendo como consequência maior número de sequelas e mortes. Outra necessidade urgente é ampliar os serviços de diagnósticos e tratamento oncológicos que atualmente concentram-se na região Sudeste e Nordeste. O aumento da cobertura mamografia é o fator mais importante para aumentar as chances de cura, pois constitui-se no principal método de rastreamento precoce da doença, mas se mantém muito baixa ao longo dos anos, apenas 23% da população alvo realiza mamografias no Brasil, muito abaixo dos 70% preconizado pela Organização Mundial de Saúde.

Neste ano (2025), o Ministério da Saúde avançou e atualizou as diretrizes de rastreamento, garantindo acesso a mamografia pelo SUS para mulheres de 40 a 49 anos.

Para estimular as mulheres a prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama em 2018 foi instituído pela lei nº 13.733/ 2018 o Outubro Rosa, considerado um marco nas ações de conscientização da prevenção e da doença no Brasil, estas ações tem sido fundamentais na disseminação de informações sobre a doença.  Esta iniciativa também tem um papel social importante: ele promove o diálogo sobre o autocuidado, a saúde da mulher e a quebra de tabus relacionados ao câncer. Além disso, incentiva políticas públicas e ações de apoio às mulheres em tratamento, destacando a necessidade de empatia, acolhimento e informação de qualidade.

Representa um movimento de solidariedade, informação e vida, lembrando a todos que a prevenção é o melhor caminho para vencer o câncer de mama.

Os principais fatores de risco modificáveis  são a obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, terapia de reposição hormonal prolongada em mulheres que possuem riscos biológicos, dieta rica em gorduras saturadas e tabagismo. Evidências cientificas robustas demostram o importante papel protetor na mudanças destes hábitos e principalmente da atividade física na prevenção da doença. Estima-se 30% dos casos  podem ser evitados coma adoção de hábitos saudáveis e manutenção do peso corporal.

A luta contra o Câncer de mama é também uma luta por justiça social, a redução da mortalidade não será possível sem o enfrentamento direto das desigualdades estruturais e sociaisParte inferior do formulário.

Referências:

  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2024: Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde, 2024.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Breast Cancer: Prevention and Control. 2024.

PARA QUE SERVE O DIA/MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA?

Em 21 de dezembro de 2023, o Governo Federal sancionou a Lei Federal Nº 14.759, estabelecendo o 20 de novembro como feriado nacional. A data passa a ser celebrada como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, embora já fosse feriado em dezenas de cidades e alguns estados. É importante notar que, desde 2003, com a aprovação da Lei 10.639, o dia já estava designado no calendário escolar. No entanto, foi somente em 2024 que o 20 de novembro foi vivenciado pela primeira vez com o status de feriado nacional em todo o país.

No entanto, mesmo com a oficialização nacional do 20 de novembro, eu — enquanto ativista negro, pesquisador das relações raciais no Brasil e um dos poucos professores negros nas instituições por onde passei — sou frequentemente levado a responder à importante, mas muitas vezes incômoda, pergunta: Para que serve o Dia/Mês da Consciência Negra?

Antes de responder a essa questão, creio ser fundamental explicar por que utilizo aqui a expressão “dia/mês”. Embora o feriado nacional esteja restrito ao 20 de novembro, os movimentos sociais negros – cuja atuação na promoção da igualdade racial e no combate ao racismo é contínua e ocorre durante o ano todo – aproveitam todo o mês de novembro para amplificar suas vozes e reivindicações em diversas instituições sociais.

Mas vamos à resposta da nossa pergunta que incomoda. Ela incomoda porque, ao ser feita, demonstra uma persistente falta de consciência social e percepção das desigualdades raciais que marcam o tecido social brasileiro. No entanto, é uma pergunta importante, pois, ao respondê-la, estamos realizando um letramento racial. Este letramento é fundamental para combater o racismo que afeta diretamente a vida da população negra e, ainda, fragiliza a democracia brasileira.

Entre outros efeitos, o Dia/Mês da Consciência Negra funciona como um momento nacional de reflexão. Trata-se de uma convocação à discussão permanente sobre a formação social brasileira e as relações de poder que colocaram grande parte da população negra à margem, em situação de vulnerabilidade, insegurança e sub-representada nos espaços sociais. Um exemplo disso está nas salas de aula das universidades. Afinal, a título de reflexão: quantos professores/as universitários/as negros/as você conhece?

Para além da reflexão, esta data/mês nos convoca a intensificar ações que instituam políticas de reconhecimento, reparação e valorização da população afrodiaspórica no Brasil durante os 365 dias do ano. Ou seja, o 20 de novembro não pode ser visto como um fim em si mesmo, mas sim como um dia de planejamento e reorientação contínua para o melhor combate ao racismo em suas múltiplas formas e para a construção de políticas antirracistas nas instituições públicas e privadas do país.

 

Delton Aparecido Felipe

Professor da Universidade Estadual de Maringá – Paraná

Coordenador de Políticas e Ações Afirmativas da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN)

E A NOSSA SAÚDE MENTAL, COMO VAI?

Por conta de minha atuação em psicologia clínica, recebo diariamente pessoas em sofrimento mental e muitas delas vêm em busca de acolhimento e ajuda para vivências que elas estão considerando difíceis. Umas vêm por estarem passando pelo luto diante a perda de uma pessoa querida, às vezes é porque receberam um diagnóstico de uma doença grave, também pode ser por conflitos conjugais ou familiares, por dificuldades na interação social, outras estão passando por um ciclo vital, como a gravidez ou a terceira idade, por exemplo. Há também aquelas para as quais “está tudo certo nas suas vidas”, que têm “tudo o que as pessoas gostariam de ter”, mas, que apesar disso, estão se sentindo exaustas, paralisadas, desesperançadas, sem vontade de fazer as coisas que lhes davam prazer, falta-lhes sentido para um viver suficientemente satisfatório. Todas essas situações expressam sofrimento mental, algo que se tornou mais frequente nos dias atuais.  É comum nas conversas cotidianas ouvirmos as pessoas queixarem-se de que estão se sentindo ansiosas e depressivas, que sua saúde mental não vai bem.

            Dados preocupantes do INSS sobre afastamento do trabalho nos fazem pensar como está a saúde mental do brasileiro, principalmente do trabalhador e da trabalhadora. No ano passado, foram 472 mil solicitações de afastamento autorizadas por questões de saúde mental. Em 2003, foram 283 mil benefícios concedidos por esse motivo. Tivemos um aumento de 67% em um ano, é muita coisa.  O perfil das pessoas atendidas se refere a mulheres e homens com idade média de 41 anos, na sua maioria com quadros de ansiedade e de depressão; mulheres (64%), homens (36%). Observamos aqui uma questão de gênero importante. Estudiosos apontam que mulheres têm sua saúde mental fortemente abalada por fatores sociais: a dupla jornada de trabalho, responsabilidade do cuidado familiar, a menor remuneração, e a violência. Importante considerar nesse aumento de pessoas em sofrimento mental, que recém saímos de uma pandemia e respectiva necropolítica governamental no trato dela, o que afetou grandemente a vida de todos nós.

Enfatizo que é da condição humana passar por momentos de ansiedade e de depressividade, e que é compreensível a presença de sentimentos de preocupação e tristeza em relação a vida cotidiana. Faz parte da constituição do ser humano tonalidades afetivas como essas, visto que ele é ser no mundo com os outros. Assim sendo, não necessariamente essas tonalidades afetivas precisam de tratamento, principalmente o medicamentoso. Mas como se manifestam de forma mais intensa esses sofrimentos mentais mais frequentes?

A ansiedade possuiu um componente que é a expectativa apreensiva, um temor que não se sabe de onde vem, uma sensação de que algo ruim vai acontecer. As pessoas se referem a ela como um aperto no peito, uma dificuldade de sossegar, de ter tranquilidade. É difícil controlar essa apreensão, há uma inquietude, uma sensação de estar sempre com os nervos à flor da pele. A pessoa fica irritada facilmente, se mostra o tempo todo muito tensa. O sono também fica comprometido, é sentido como “leve”, sem efeito reparador.  A ansiedade também costuma trazer sintomas de ordem cognitiva, como dificuldades de concentração e de memória.

A depressão, por sua vez, traz uma sensação de tristeza, de apatia, autodesvalorização e sentimento de culpa. Há uma perda da capacidade de sentir alegria e prazer. A vida se apresenta desprovida de sentido, tudo parece vazio, o mundo é sentido como “sem cor” e inóspito. As pessoas neste estado se sentem um peso para os outros, principalmente para os familiares, e se recriminam por isso. Há uma lentificação do pensamento, falta de vontade e iniciativa, perda do interesse sexual, falta de apetite e dificuldades com o sono (dormir muito ou não dormir). O sofrimento pode ser percebido como insuportável e interminável, e quando isso é intenso a pessoa pode pensar em suicídio como forma de acabar com seu sofrimento. Aliás, não é incomum aparecer nas autópsias psicológicas de pessoas que morreram por suicídio uma depressão mal diagnosticada.

O sofrimento mental é um fenômeno complexo e multifatorial. Da mesma forma que aspectos fisiológicos, neuroquímicos, emocionais, psíquicos, sociais e ambientais concorrem para seu delineamento, seu tratamento também precisa contemplar esses aspectos. É importante o tratamento medicamentoso bem orientado, mas também é imprescindível o acompanhamento psicológico, para que a pessoa possa compreender sua dinâmica psíquica, seu modo de constituir-se como sujeito, sua forma de relacionar-se, para que possa fazer escolhas melhores para si, construindo um projeto existencial que faça sentido para si, dando-lhe esperança e apreço pelo viver. Também é preciso que a pessoa seja cuidada no âmbito coletivo, que sua família encontre respaldo para cuidar de seus membros, que haja políticas públicas que ofereçam amparo para que o sujeito se singularize e reconheça em si a humanidade.

Da mesma forma que procuramos os profissionais especializados para dirimir uma dor no corpo, precisamos procurar os profissionais especializados para a dor psicológica, para o sofrimento mental. Aliás, muitos desarranjos no corpo são devido a sofrimentos mentais e vice-versa, afinal somos seres unitários. Pode-se procurar pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que possui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com seus dispositivos voltados para essa complexidade da saúde, tais como os CAPS e Emergência Psiquiátrica. Outra opção são as clínicas escolas das Instituições de Ensino Superior. Na UEM, por exemplo, temos a Unidade de Psicologia Aplicada e o Ambulatório de Psiquiatria. Também se pode recorrer a rede privada de assistência a saúde mental. O que não pode é estigmatizar o sofrimento mental e deixar a saúde mental de lado. Mas nem tudo se consegue sozinho.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que a saúde mental é um estado de bem-estar vivido pelo indivíduo, estado esse que possibilita o desenvolvimento de suas habilidades pessoais para que ele consiga responder aos desafios da vida e contribuir com a comunidade. Só por essa definição podemos apreender que a saúde mental de um indivíduo não depende exclusivamente dele; são necessários suportes que lhe ofereçam condições para “desenvolver suas habilidades”, tais como acesso à educação, aos bens culturais, às políticas de saúde e de amparo social, ao lazer, à moradia digna, ao trabalho, para citar as de ordem mais importantes imediatas. Para responder “aos desafios da vida”, o indivíduo necessita ter suas necessidades básicas atendidas, precisa se sentir pertencente a um grupo social, a uma comunidade, precisa ser tratado com dignidade e com respeito, precisa ter segurança a sua integridade física e moral, precisa se sentir validado e apreciado pelos seus próximos e pela sociedade. Tendo essas questões garantidas, muito possivelmente ele terá como “contribuir com a comunidade”, criando e ofertando a ela bens de ordem material e imaterial, na maior parte das vezes por meio de seu trabalho. Eu costumo dizer que para se ter saúde mental é preciso cuidar bem do viver, e cuidar do viver não é algo que se refere apenas a uma pessoa ou a sua família, é muito mais amplo, é projeto social, é projeto político, é projeto coletivo. Cuidar da saúde mental, então, não se refere somente a cuidar do bem-estar individual, é cuidar do coletivo e de tudo o que nos tornou e nos torna humanamente sensíveis.

 

Lucia Cecilia da Silva é docente aposentada da Universidade Estadual de Maringá, onde ainda atua voluntariamente como pesquisadora sênior do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado pela Université Paris 7. Atua como psicóloga clínica no Veredas Instituto de Psicologia, Arte e Cultura, em Maringá.

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